HISTÓRIA DA VILA SÃO FRANCISCO

De acordo com o Pe. Frederico Bezerra Maciel, em seu livro “Lampião, seu tempo e seu reinado” (Volume I, páginas 50-51, ano 1985):

“A Vila de São Francisco”, hoje Pajeú, 5° distrito do município de Serra Talhada, pitorescamente enfileira sua única rua à margem esquerda do rio Pajeú, com setenta e duas casas alinhadas sob refrescantes sombras de frondosos tamarindos. Sua capela, dedicada a São Francisco das Chagas, fica retirada no antes do arruado.

A vila era antiga fazenda pertencente ao Alferes Mariano Feitosa, natural de Portugal, donde emigrou para os Inhamuns, no Ceará, e de lá para as margens do Pajeú.
Impossível conceber-se indivíduo tão orgulhoso e avarento, como esse tal alferes. Não falava com pobre, não dava a mão a preto. E gabava-se ele que isto era “legítimo brio português”! Os moradores de sua fazenda que morriam tinham que se enterrar em Vila Bela, porque ele não dava, de seu latifúndio, nenhuma braça de terra para construir um minúsculo cemitério sequer. Também, quando morreu, ninguém apareceu. Morreu  sozinho, sem reza nem vela, feito bicho, que cristão não era. Três dias fazia, o defunto abandonado, podre, dentro de casa. O bafo insuportável do estado acelerado de decomposição do cadáver levou alguns vizinhos, depois de bem se encachaçarem para aguentar o fedor, a tirar e arrastar, tudo às pressas, o corpo largando os pedaços e acompanhado de urubus esvoaçando, e o enterraram sem cruz, em lugar propositadamente indemarcado da caatinga, para não se ter mais memória dele.

Ele era avô de Joaquim dos Santos Feitosa, “Joaquinzinho”, da fazenda  Passagem do Brejo.
Francisco Pereira da Silva, um dos filhos de José Pereira da Silva, da fazenda Carnaúba, adquiriu a propriedade por compra e deu-lhe o nome de fazenda “São Francisco”. Logo depois, construiu a capela. Era ele grande proprietário de muitas léguas naquela faixa do Pajeú, desde a vila de Santa Maria à fazenda Escadinha. Possuía inúmeros escravos. E, dizem, que guardava, em muita segurança, baús de couro cheios de moedas de ouro.
São Francisco é vila histórica, secular, fundada talvez no primeiro quartel do século XIX, pelo mesmo Francisco Pereira da Silva, que doou patrimônio de um quilômetro de terras e traçou a rua à margem esquerda do rio Pajeú que, neste local, deslumbra por seus artísticos amontoados de pedras arredondadas. Foi cabeça da Comarca de Belmonte, sendo seu primeiro e único juiz de direito o Dr. Augusto Abel Peixoto de Miranda Henriques, irmão do Dr. Adauto, Arcebispo da Paraíba. A sede da Comarca foi transferida para Vila Bela. Enfim teatro de muitas lutas entre Pereiras e Carvalhos.

Na capela de São Francisco foram batizados todos os nove filhos do almocreve José Ferreira da Silva e sua esposa D. Maria Lopes, entre os quais o famoso Virgulino que se tornou “Lampião”.

Segundo os mais velhos, parece que pesa sobre a vila a lenda de “maldição do alferes”, cujo corpo agourento devia ter sido queimado e não enterrado naquelas terras. Realmente, em quatro vezes a desgraça desabou negramente sobre a vila.

Primeira vez. Costumava Nhá Clemência repetir a todo mundo:

– “Isto aqui é terra de Pereira. Aqui Carvalho não toma pé”.

Diziam que era caduquice dessa octagenária.
O fato é que, certo dia, um Carvalho (José Lopes Dinis Carvalho) foi residir na rua.

Francisco Pereira da Silva, em vez de botar o intruso pra fora, juntou a cabroeira e irracionalmente, a golpes de machado e foice, transformou a vila num montão de ruínas.
Segunda vez. 1849. Uma tropa, que regressava de diligências policiais na Serra Negra, invade o nascente e próspero povoado….deixando-o em ruínas…apenas a capela e 5 ou 6 casas escaparam à selvagem fúria da soldadesca.

Terceira vez. 1919. O Coronel João Nunes, da Polícia de Pernambuco, incendiou a vila, não escapando desta vez nem a própria capela que foi depredada e seus santos quebrados.

Quarta vez. 1937. Agamenon Magalhães, governador de Pernambuco, idealizara a perenização dos rios sertanejos: Pajeú, Moxotó e Brígida, através de barragens sucessivas como no vale do Tennessee, nos Estados Unidos. Homem de ideia e ação imediata, vexou-se em beneficiar primeiramente sua terra. Conforme o projeto no papel, a primeira barragem seria no lugar Serrinha, tendo a vila de São Francisco de ser totalmente inundada. Por isso, construiu-se, antes de tudo, outra vila próxima da antiga São Francisco e da futura barragem. Com dupla finalidade: núcleo operário de abastecimento da construção e absorvedouro das famílias da vila São Francisco. Mas, quando se fizeram as sondagens do solo, essas contra-indicaram a construção! Fracasso e prejuízos incomensuráveis! Pior de tudo, a histórica e heróica vila de São Francisco, ou Pajeú, está se desmoronando por si mesma, desintegrando-se pela ação arrasadora do tempo e pela fatalidade. Montões de ruínas de casas desabadas, umas deixando apenas a fachada, sem portas e janelas, em pé, feito fantasmas. Atualmente (1977) apenas umas quinze casas estão ocupadas por famílias ou pessoas isoladas, paupérrimas, que vivem da agricultura de subsistência”.

Pelo visto, a vila de São Francisco foi vítima da “maldição do alferes!”

Por Helvécio Neves Feitosa.

   

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