UM POUCO DE HISTÓRIA SOBRE A PEDRA DO REINO

Conheça a história da Pedra do Reino e do Sebastianismo em São José do Belmonte no texto de Helvécio Neves Feitosa.

Os eventos que culminaram no banho de sangue na Pedra Bonita, no ano de 1838, tiveram começo dois anos antes, quando o mameluco João Antônio dos Santos, morador do termo de Villa-Bella, então simples distrito de paz e comissariado de polícia de Serra Talhada, munido de duas pedrinhas brilhosas, exibia-as misteriosamente e dizia aos incautos habitantes daquele lugar serem brilhantes de alto valor, extraídos por ele próprio de uma mina encantada, que lhe fora revelada.

Inspirava-lhe um velho folheto, do qual nunca se separava, e que continha um desses contos de lendas, que andavam muito em voga naquela época e que relatavam o desaparecimento de Dom Sebastião, Rei de Portugal, no longínquo ano de 1578, na batalha de Alcácer-Quibir, no norte da África (em Marrocos). Dom Sebastião era um jovem rei de 24 anos, solteiro, sem herdeiro ao trono. Com a sua morte, o Reino de Portugal foi anexado ao da Espanha dois anos depois, sob a regência de Felipe II, que era viúvo de uma filha de Dom João III, rei de Portugal, avô de Dom Sebastião, que havia falecido em 1554. Portugal ficou sob o jugo da Espanha até 1640, quando readquiriu sua independência, tendo o início o reinado de Dom João IV, o fundador da dinastia de Bragança.

Após a batalha de Alcácer-Quibir, espalhou-se a lenda de que Dom Sebastião não havia morrido, mas estava em uma ilha encantada e voltaria para libertar sua pátria e seu povo. Essa lenda perdurou por três séculos como símbolo do nacionalismo português. A crença em seu retorno era tão forte que chegou a fazer com que D. João IV, antes de ser aclamado (62 anos despois do desaparecimento de “O Desejado”), tivesse que jurar que entregaria o reino a Dom Sebastião assim que ele voltasse à sua pátria.

O mameluco de Vila Bela informava aos incautos moradores que o lugar encantado ficava na Serra do Catolé (ou Serra Formosa, depois Serra do Reino), em Vila Bela (hoje nos domínios de São José do Belmonte), nos limites com a Província da Paraíba. Conseguiu ele, graças à ignorância da população e à ilusão em abraçar o maravilhoso e o fantástico, obter por empréstimo de muitos fazendeiros do lugar, bois, cavalos, além de boa quantidade de dinheiro, com a condição de lhes restituir em valores muito mais elevados, tão logo operasse o desencantamento do misterioso reino. Falava da existência de um grande tesouro, que se achava à sua disposição, e cuja disponibilidade estava dependendo de um evento que em breve aconteceria. Logo conseguiu um grupo de seguidores, muitos dos quais de sua própria família, que passaram a ser seus apóstolos. Seus esforços e os de seus ardentes seguidores engrossaram gradualmente as fileiras dos adeptos da seita, mormente nas camadas mais humildes da população.

O povo passou a ser desviado da verdadeira crença religiosa e do trabalho honesto, na esperança de ser indenizado pelos tesouros prometidos. Passou a ser arrastado para a prática do furto, roubo e outros crimes. Naquele tempo, apareceu por lá o padre Francisco Correia, com o objetivo de neutralizar o embuste da perigosa seita, que prosperava no seio do povo honesto e trabalhador. O venerando sacerdote seguiu para a Fazenda Cachoeira, de Simplício Pereira da Silva, por ser um local próximo aos lugares em que mais enraizada se achava a doutrina apregoada pelo mameluco. Enviou emissários à procura do impostor. Para sua alegria, o embusteiro apareceu em uma de suas missões, entregou-lhe as duas pedras, que nada tinham a ver com brilhantes, confessou publicamente os seus embustes, prometeu-lhe retirar-se do lugar, o que fez de imediato, dirigindo-se para as bandas do Rio do Peixe, e dali para os Inhamuns.

O que deveria marcar o fim do sebastianismo no sertão pernambucano, gerou uma crença ainda mais forte. Ao retirar-se João Antônio (primeiro rei) da Serra do Catolé, disse aos seus discípulos que iria recrutar mais gente em outros lugares para o reino de El-Rei Dom Sebastião, passando a coroa a seu cunhado, João Ferreira, que passou a ser o novo rei (segundo rei) da Pedra Bonita. Esse também dizia ter visões de Dom Sebastião e intensificou a divulgação da profecia. Era um sujeito carismático. Tornou-se muito popular e aumentou o número de seguidores para 300, que o tratavam por “Sua Santidade El-Rei” e beijavam-lhe os pés. Decidiu instalar sua corte junto às duas grandes rochas da Pedra Bonita, que seria o local dos rituais de desencantamento, a permitir a ressurreição de Dom Sebastião, com sua volta ao mundo real, acompanhada de muitas benesses para os seguidores.

No dia 14 de maio de 1838, o rei, depois que deu muito “vinho encantado” (uma mistura de jurema com manacá) ao povo, declarou que Dom Sebastião estava muito desgostoso com os seus seguidores, por serem incrédulos, fracos e falsos, não regando o campo encantado, e não lavando as duas torres da catedral do seu reino (as duas rochas) com o sangue necessário para quebrar de uma vez o cruel encantamento. Nesse instante, um velho chamado Juca, correu, abraçou-se com as pedras e entregou o pescoço a um outro adepto, que o cortou com um facão. Assim foram mortos muitos homens, mulheres, crianças e irracionais. Os pescoços eram cortados e as cabeças eram quebradas. O sangue que jorrava era aproveitado para untar as pedras.

Os sacrifícios iniciados no dia 14 de maio, continuaram nos dias 15 e 16. Ao fim do terceiro dia de matança, o monstruoso João Ferreira conseguiu lavar as bases das duas torres, bem como inundar os terrenos adjacentes com o sangue de 30 crianças, 12 homens, 11 mulheres e 14 cães. Os corpos iam sendo colocados ao pé das pedras em grupos simétricos, conforme o sexo, idade e qualidade dos mesmos.

No dia 17 de maio, terceiro dia de sacrifícios, o indivíduo Pedro Antônio, indignado com a morte de suas duas irmãs, insurge-se contra o rei João Ferreira. Pedro Antônio era irmão do primeiro rei, João Antônio. O insurgente subiu ao trono e bradou que Dom Sebastião, cercado de sua corte, lhe aparecera na noite anterior, e reclamava a presença do rei, única vítima que faltava para se operar o seu completo desencantamento. Os fanáticos o seguiram. O rei foi sacrificado e Pedro Antônio foi proclamado o novo rei (o terceiro).

O Comissário Major Manoel Pereira da Silva, mais tarde Coronel e Comandante-Superior dos municípios de Flores, Ingazeira e Villa-Bella (Serra Talhada) estava em sua Fazenda Belém na chuvosa manhã do dia 17 de maio de 1838, em companhia dos irmãos Alexandre e Cipriano. Conversavam a respeito do abandono em que se encontravam os gados da sua fazenda Caiçara, depois da inesperada ausência do vaqueiro José Gomes. Já passava das 10 horas da manhã, quando aparece e se ajoelha aos pés do Comissário Manoel Pereira o maltrapilho vaqueiro José Gomes, que há 20 dias desaparecera, abandonando a Fazenda Caiçara, após ser convencido por um tio a ir para a Serra Formosa, em busca dos tesouros prometidos. Fez um relato detalhado dos assombrosos acontecimentos.

O Comissário Manoel Pereira, avaliando mal o perigo a que poderia expô-lo uma ação precipitada, sem requisitar a força pública que se achava a 15 léguas de distância, e sem mesmo recorrer aos seus numerosos amigos e irmãos que residiam mais afastado, resolveu partir no dia seguinte muito cedo, para dar combate ao inimigo, com aquela gente de sua vizinhança que pudesse reunir até aquela hora, com o acréscimo dos poucos moradores que fosse encontrando nas fazendas que margeavam os caminhos. A despeito da precipitação, duas circunstâncias contribuíram para a decisão: o grande contingente de forças que no dia seguinte, 18 de maio, seu irmão Simplício Pereira da Silva, devia trazer para incorporar-se às suas, nas imediações de Serra Formosa; a insistência dos irmãos, Alexandre e Cipriano, principalmente depois que souberam que os sebastianistas estavam planejando atacar suas casas e fazendas. Quando a aurora do dia 18 de maio raiou, o comissário, junto como os dois irmãos e à frente de 26 paisanos bem montados, armados e dispostos, já marchavam para a Serra Formosa. No caminho, foram incorporados mais nove cavaleiros. Andaram depressa e, por volta de uma hora da tarde, já se achavam no sopé da Serra Formosa, no lugar denominado Gameleira, cinco léguas de distância da Fazenda Belém, e uma, no máximo, da Pedra Bonita. Dali, após rápido descanso, tomaram o caminho do destino final (a Pedra Bonita). Os dois irmãos, Alexandre e Cipriano, com poucos soldados que os seguiam, ao aproximarem-se de uns umbuzeiros, depararam-se face a face com Pedro Antônio (terceiro rei), que estava acompanhado de um séquito numeroso de mulheres, meninos e de homens, armados de facões e cacetes.

O combate que se seguiu foi de uma ferocidade indescritível. Aos gritos de “Viva El-Rei Dom Sebastião”, os fanáticos arremessaram-se furiosos sobre aquele punhado de cavaleiros, em cuja frente já se encontrava o Comissário Major Manoel Pereira da Silva. A luta foi desigual, corpo a corpo (pois poucos puderam usar mais de uma vez suas espingardas, por não haver tempo hábil para recarregá-las) contra uma horda de sectários desejando o martírio, fanatizados que estavam com a ideia da imediata e gloriosa ressurreição. O cenário que se seguiu à luta foi dos mais horrendos. Ao final, jaziam 22 cadáveres sobre o campo de combate, incluindo o do próprio rei Pedro Antônio com 16 dos seus sectários, os de Cipriano e Alexandre Pereira, com mais três dos seus companheiros, além de muitos feridos de ambos os lados, dentre esses o próprio Comissário.

Os sebastianistas fugitivos tiveram outro encontro minutos depois, com o Capitão Simplício Pereira da Silva e sua força, recentemente chegada. Perderam os fanáticos mais oito companheiros. Os sobreviventes foram conduzidos presos para a Fazenda Belém, sob as ordens do Comissário Manoel Pereira da Silva, de onde foram recambiados, com uma comunicação circunstanciada sobre o ocorrido, ao prefeito de Flores, Francisco Barbosa Nogueira Paz. Fortaleza, 17/05/2018 (180 anos depois).

Helvécio Neves Feitosa.

Postado originalmente em: facebook.com/familiapereiradopajeu/

   

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